sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A cabeça do eleitor ou Onde a eleição de Nenê era uma questão de lógica




Por Ricardo Recchia
ricardorecchia@hotmail.com



No livro A Cabeça do Eleitor, o sociólogo e analista político Alberto Carlos Almeida, que também é professor universitário e colunista do jornal Valor Econômico, aponta seis razões para que um candidato aumente consideravelmente suas chances de se eleger.
Ele afirma que contando ainda com um pouco de sorte, um candidato pode ser tornar quase imbatível.
Analisando as regras que o professor Almeida elenca e também avaliando os resultados das eleições em Barra Bonita e o perfil do candidato eleito, chegamos a algumas conclusões interessantes sobre o comportamento do eleitorado.
Primeiro, vamos apresentar cada uma das regras e, logo em seguida, expor algumas características semelhantes encontradas na eleição para prefeito de Barra Bonita:



Regra 1: Ganhar eleição contra um governo bem avaliado não é para quem quer, é para quem pode.
O que explica o livro: Quando o governo é mal avaliado, o candidato da oposição torna-se o franco favorito. Nessa situação, a oposição terá duas estratégias básicas: diferentes apenas em grau: fazer mais oposição ou fazer uma oposição moderada.

Neste caso, em Barra Bonita: Alberto Almeida considera essa regra a mais importante. E eu também. O governo Mário Teixeira é muito mal avaliado pela população, e chegou a ter índice de rejeição de quase 80% em pesquisa divulgada pelo Jornal da Barra no início do ano. Era (quase) impossível de o prefeito ser reeleito. Para o pesquisador, isso é estatística: mais de 50% de avaliação de ótimo e bom, suas chances de se eleger chegam a 75%, e assim sucessivamente. Ou seja, um governo que tiver 70% de avaliação ótima e boa, aumentará suas chances de reeleição para 95%. Não foi o caso de Barra Bonita. Mas, até aí, pelo menos nessa regra, os outros adversários de Nenê estavam no mesmo barco. Eles eram na teoria todos opositores ao atual governo.



Regra 2: O candidato que tem identidade não tem pés de barro.
O que explica o livro: Candidato com identidade é aquele que tem uma imagem clara diante do eleitorado. A pior coisa que pode acontecer para um candidato é a falta de clareza na imagem.

Neste caso, em Barra Bonita: Nenê foi o candidato que melhor explorou sua imagem durante as eleições municipais. Foi a imagem de um candidato que poderia resolver os problemas mais urgentes dos barra-bonitenses. Ele apareceu como o candidato que poderia resolver os problemas sociais. A ênfase da campanha na saúde, educação e assistência social foi fundamental. Mário Teixeira, por exemplo, não conseguiu desvencilhar sua imagem de seus ex-apoiadores, que migraram para o Partido Progressista. De Luca tinha imagem desgastada, aparecia como um político das “antigas” para o eleitor mais jovem. Cavinatto quis atrelar sua imagem á de Lula, mas o PT, historicamente, nunca foi bem votado na cidade, com exceção da eleição para prefeito em 2004. Mas aí foi mais pela imagem do atual prefeito (no PT da época) do que pelo próprio partido.




Regra 3: Em eleição, quem é mais lembrado larga na frente em uma corrida curta.
O que diz o livro: Portanto, às vezes, é preciso disputar várias eleições antes de se tornar o favorito.

Neste caso, em Barra Bonita: Nenê era lembrado como sucessor de Mário Teixeira desde o final do ano passado, quando começaram as especulações sobre possíveis nomes para disputar as eleições. Ex-vereador, ex-presidente da Câmara, ex-prefeito. E, o mais importante, foi candidato a deputado estadual pelo PPS e obteve 15 mil votos há menos de dois anos. Mais uma vez, Nenê estava à frente dos outros candidatos. Apesar de De Luca já ter sido prefeito, isso foi há bastante tempo, na gestão 1989-1992. Quanto aos outros, foi a primeira candidatura majoritária de Finato e Cavinatto.


Regra 4: Para ser eleito, é preciso ter currículo e prometer resolver problemas importantes do eleitorado.
O que diz o livro: O eleitor leva em conta quem tem o poder de combater o principal problema que atinge a vida dele. O candidato que está dizendo que vai resolver a questão tem a preferência do eleitorado.

Neste caso, em Barra Bonita: Como eu disse anteriormente, o plano de governo de Nenê foi inteligente, e focou principalmente saúde, educação e promoção para pessoas com alta vulnerabilidade social. O discurso pegou e foi importante para sua vitória folgada nas eleições. A questão da merenda escolar também foi bem explorada, e atingiu dois pontos nevrálgicos de qualquer família: crianças e formação educacional. De um modo geral, o discurso de todos os candidatos (inclusive Nenê) foi bem parecido. Alguns planos de governo eram tão portentosos que, se fossem mesmo colocados em prática, a Barra Bonita seria tão boa quanto uma cidade suíça ou norueguesa.




Regra 5: Quem não tem potencial de crescimento não vai longe.
O que diz o livro: Potencial de crescimento é uma forma diferente de se avaliar a rejeição de cada candidato. Há dois tipos de rejeição: quando o político é velho conhecido do eleitorado, mas seu trabalho é rejeitado; e quando o candidato é pouco conhecido.

Neste caso, em Barra Bonita: Nenê, cuja eleição já era dada pela maioria como favas contadas, era um nome consolidado, e o potencial de crescimento neste caso era pouco relevante. Os outros candidatos, porém, não deslancharam, pelos motivos que já elencamos anteriormente. Finato era desconhecido pela maioria. Celso Aranha não conseguiu firmar seu nome, após sucessivas eleições, e De Luca era um velho conhecido do eleitorado, mas teve seu nome rejeitado. Cavinatto não era tão desconhecido assim, mas não teve apoio nem mesmo dentro de seu partido, que rachou após o Processo de Eleições Diretas.



Regra 6: Não se deve contar com a transferência de votos (de prestígio, de boa avaliação).
O que diz o livro: Não é possível contar com os apoios políticos para conseguir voto. Popularidade e simpatia não se transferem.

Neste caso, em Barra Bonita: Aparentemente, nenhum dos candidatos em Barra Bonita se encaixa nessa regra. Não havia candidato da situação, uma vez que Mário Teixeira poderia se eleger. Talvez uma tentativa de transferir votos tenha ocorrido com o PC do B, que trouxe até Ministro e deputados para a Barra. Mas sem sucesso.



Conclusão

A pesquisa para o livro A Cabeça do Eleitor é séria. Foi realizada com base em dados de mais de 150 eleições brasileiras desde a redemocratização.
Com base nas regras apontadas pelo ensaio, podemos concluir que o candidato que mais seguiu essa “cartilha” foi José Carlos de Mello Teixeira, do PPS.
Pela lógica, ele foi eleito, com margem de votos considerável sobre o segundo colocado.
Para finalizar, um trecho de uma entrevista com o professor Alberto Almeida:



“Um candidato de oposição, diante de um governo muito mal avaliado, é visto como aquele que vai resolver o principal problema. E se ele tem lembrança alta, praticamente a eleição vai cair no colo. O candidato imbatível é a mão e a luva. Ele tem o perfil correto para o momento correto”.