Ricupero: "América Latina não é relevante para os EUA"Leia trechos da entrevista publicada ontem pelo jornal Comércio do Jahu:
Comércio – Como o senhor avalia o sentimento de empolgação que tomou conta de todo o mundo com a eleição do democrata Barack Obama à Casa Branca?
Rubens Ricupero – Acho natural porque Barack Obama representa um caso excepcional. Não é fácil alguém com as características dele ser eleito nos Estados Unidos. Mas a empolgação também se justifica pelas qualidades pessoais de Obama. Ele é o grande líder norte-americano desde o ex-presidente John Kennedy (1961-1963). Obama tem a capacidade de inspirar as pessoas, ele é um líder carismático. E escreve de maneira muito impactante. Os dois livros que Obama escreveu sobre sua trajetória pessoal são impressionantes. Obama tem muitas qualidades. E, o que é muito importante, ele representa uma nova geração. O jovem americano se viu identificado com alguém que representa renovação na liderança política do país. Todo esse movimento não é algo negativo. Os Estados Unidos (e o resto do mundo) vivenciam crise muito séria e um dos componentes dessa crise é falta de confiança nas instituições. A questão da confiança só se resolve com base na liderança. As pessoas precisam de alguém que possa restabelecer a confiança no modelo econômico. Acho explicável tudo isso em cima do Obama.
Comércio – O lema da campanha eleitoral de Barack Obama era “Change” (mudança). Que tipo de mudança podemos esperar dele?
Ricupero – A mudança já ocorreu com a própria eleição de Barack Obama. Devemos levar em conta que os democratas acentuaram sua vitória no Congresso americano, tanto na Câmara como no Senado. Nós chegamos ao fim de uma era ultraconservadora, que teve início na época de Richard Nixon (1969-1974) e depois com Ronald Reagan (1981-1989). Isso mostra não apenas que o presidente mudou de lado, mas que o Congresso mudou de lado também.
Comércio – O que a vitória do candidato democrata representa para os brasileiros?
Ricupero – No nosso caso, não haverá impacto específico. Não acredito que nosso caso seja diferente da importância do êxito de Obama para a Inglaterra, a Alemanha, o Japão, etc. Todos têm mais ou menos o mesmo grau de interesse: que ele tenha sucesso em enfrentar a crise econômica. Porque se a crise econômica se agravar, também seremos prontamente atingidos.
Comércio – As transações comerciais brasileiras serão afetadas, uma vez que os democratas protegem mais o mercado interno? Como fica a negociação das commodities brasileiras?
Ricupero – Depende menos de Barack Obama do que do Congresso norte-americano. O poder de decisão, em matéria de comércio exterior, está concentrado na Câmara dos Deputados e no Senado dos Estados Unidos. E com o Congresso sendo dominado pelos democratas, que são mais protecionistas, dificilmente ele deve fazer mudança muito grande. Só acredito que haverá algum tipo de oportunidade na área do agronegócio se os Estados Unidos se convencerem de que vão precisar do etanol, porque não são capazes de produzir tudo o que necessitam. Ou ainda, talvez, pela crise econômica, sendo um peso muito grande continuar com os subsídios para o etanol feito a partir do milho. Mas é evolução que temos de avaliar com o tempo.
Comércio – Como o trabalhador vai sentir o peso da crise em seu dia-a-dia?
Ricupero – Vai diminuir o crescimento da economia, vai haver menos oportunidades de emprego. Em questões de investimento, as pessoas precisam ser mais prudentes e evitar a especulação financeira. O dólar hoje está em alta, mas esta situação pode não se manter por muito tempo. Eu recomendo que as pessoas evitem o endividamento. Em época de crise, precisamos agir com cautela.
Comércio – Voltando à vitória de Barack Obama, o senhor acha que ele dará atenção especial à América Latina?
Ricupero - Acho que nossas relações serão melhores. Obama é mais aberto ao diálogo. Mas a América Latina não é uma questão central para os EUA. Não vejo razão para isso. Hoje os grandes problemas do mundo estão no Oriente Médio, no Iraque, no Irã, no Afeganistão, no conflito entre judeus e palestinos. É natural que o país mais poderoso do mundo desvie sua atenção para esses problemas. Na América Latina, você tem governos com retóricas contundentes, como Hugo Chavez na Venezuela, mas nada que coloque em risco a paz mundial. Não vejo motivo para os Estados Unidos prestarem atenção em nós. O que nós precisamos realmente é que os EUA dêem um jeito na grave crise econômica. Essa é a melhor contribuição que o governo Obama pode nos dar.
Comércio – Como o senhor avalia o sentimento de empolgação que tomou conta de todo o mundo com a eleição do democrata Barack Obama à Casa Branca?
Rubens Ricupero – Acho natural porque Barack Obama representa um caso excepcional. Não é fácil alguém com as características dele ser eleito nos Estados Unidos. Mas a empolgação também se justifica pelas qualidades pessoais de Obama. Ele é o grande líder norte-americano desde o ex-presidente John Kennedy (1961-1963). Obama tem a capacidade de inspirar as pessoas, ele é um líder carismático. E escreve de maneira muito impactante. Os dois livros que Obama escreveu sobre sua trajetória pessoal são impressionantes. Obama tem muitas qualidades. E, o que é muito importante, ele representa uma nova geração. O jovem americano se viu identificado com alguém que representa renovação na liderança política do país. Todo esse movimento não é algo negativo. Os Estados Unidos (e o resto do mundo) vivenciam crise muito séria e um dos componentes dessa crise é falta de confiança nas instituições. A questão da confiança só se resolve com base na liderança. As pessoas precisam de alguém que possa restabelecer a confiança no modelo econômico. Acho explicável tudo isso em cima do Obama.
Comércio – O lema da campanha eleitoral de Barack Obama era “Change” (mudança). Que tipo de mudança podemos esperar dele?
Ricupero – A mudança já ocorreu com a própria eleição de Barack Obama. Devemos levar em conta que os democratas acentuaram sua vitória no Congresso americano, tanto na Câmara como no Senado. Nós chegamos ao fim de uma era ultraconservadora, que teve início na época de Richard Nixon (1969-1974) e depois com Ronald Reagan (1981-1989). Isso mostra não apenas que o presidente mudou de lado, mas que o Congresso mudou de lado também.
Comércio – O que a vitória do candidato democrata representa para os brasileiros?
Ricupero – No nosso caso, não haverá impacto específico. Não acredito que nosso caso seja diferente da importância do êxito de Obama para a Inglaterra, a Alemanha, o Japão, etc. Todos têm mais ou menos o mesmo grau de interesse: que ele tenha sucesso em enfrentar a crise econômica. Porque se a crise econômica se agravar, também seremos prontamente atingidos.
Comércio – As transações comerciais brasileiras serão afetadas, uma vez que os democratas protegem mais o mercado interno? Como fica a negociação das commodities brasileiras?
Ricupero – Depende menos de Barack Obama do que do Congresso norte-americano. O poder de decisão, em matéria de comércio exterior, está concentrado na Câmara dos Deputados e no Senado dos Estados Unidos. E com o Congresso sendo dominado pelos democratas, que são mais protecionistas, dificilmente ele deve fazer mudança muito grande. Só acredito que haverá algum tipo de oportunidade na área do agronegócio se os Estados Unidos se convencerem de que vão precisar do etanol, porque não são capazes de produzir tudo o que necessitam. Ou ainda, talvez, pela crise econômica, sendo um peso muito grande continuar com os subsídios para o etanol feito a partir do milho. Mas é evolução que temos de avaliar com o tempo.
Comércio – Como o trabalhador vai sentir o peso da crise em seu dia-a-dia?
Ricupero – Vai diminuir o crescimento da economia, vai haver menos oportunidades de emprego. Em questões de investimento, as pessoas precisam ser mais prudentes e evitar a especulação financeira. O dólar hoje está em alta, mas esta situação pode não se manter por muito tempo. Eu recomendo que as pessoas evitem o endividamento. Em época de crise, precisamos agir com cautela.
Comércio – Voltando à vitória de Barack Obama, o senhor acha que ele dará atenção especial à América Latina?
Ricupero - Acho que nossas relações serão melhores. Obama é mais aberto ao diálogo. Mas a América Latina não é uma questão central para os EUA. Não vejo razão para isso. Hoje os grandes problemas do mundo estão no Oriente Médio, no Iraque, no Irã, no Afeganistão, no conflito entre judeus e palestinos. É natural que o país mais poderoso do mundo desvie sua atenção para esses problemas. Na América Latina, você tem governos com retóricas contundentes, como Hugo Chavez na Venezuela, mas nada que coloque em risco a paz mundial. Não vejo motivo para os Estados Unidos prestarem atenção em nós. O que nós precisamos realmente é que os EUA dêem um jeito na grave crise econômica. Essa é a melhor contribuição que o governo Obama pode nos dar.